Carnaval: será que ele realmente define o Brasil?

February 14, 2018

Muita gente gosta de falar sobre o Carnaval usando o “pathos” do evento para definir a “brasilidade”, ou seja, para assumir que existe uma identidade brasileira facilmente tangível e que ela se resume de alguma maneira nessa festa. Mas será que o Carnaval realmente define o Brasil? Se sim, como isso ocorre? E será que isso é positivo?

 

Não há respostas fáceis para essas perguntas, mas não deixa de ser importante refletir sobre a necessidade de elas serem feitas, já que os estereótipos, apesar de serem métodos naturais de conhecimento sobre a cultura do outro, também podem tornar-se filtros perigosos e viciantes, que obstaculizam nossas relações com as pessoas e reforçam preconceitos.

 

(Foto: Carnaval do Rio de Janeiro)

 

 

 

Senso Comum

Meu problema com essa ideia generalizada do Carnaval que foi disseminada pelo mundo vem desde a minha infância. Apesar de eu ter nascido em um estado brasileiro com fraca tradição carnavalesca, era muito comum que a professora começasse as aulas em fevereiro pedindo que cada aluno se apresentasse, fazendo perguntas sobre as nossas vidas, nossas famílias, nossos pais, e, é claro, onde pensávamos “pular o carnaval”.

 

Assim, como uma dessas perguntas super óbvias que você faz porque há um acordo tácito, quase um contrato social, que implica necessariamente que TODO MUNDO pule o Carnaval. No início da década de 1990 existiam no Brasil vários desses acordos tácitos dos quais ninguém poderia escapar. Daí surgiam as perguntas intermináveis dos professores e dos colegas da escola que insistiam em deixar-me à margem da sociedade:

 

  • Você já fez a primeira comunhão? (não sou católico)

 

  • Vocês viram o jogo do São Paulo contra o Corinthians ontem? (não gosto de futebol)

 

  • Vocês ouviram o novo CD do Zeca Pagodinho? (não ouço pagode)

 

E não podia faltar também:

 

  • E você, fulano? Onde você vai pular o Carnaval?

 

 Dependendo da resposta pronta de cada aluno a reação da professora variava entre “Olha só, que maravilhoso! O Rio tem o melhor Carnaval! Muito bom, Joãozinho!” e “Aham, ah legal a Bahia, nunca fui, depois você me conta como foi, Pedrinho”. Quando chegava a minha vez a resposta era sempre a mesma “não pulo Carnaval”, e a reação da professora era sempre de desdém.

 

Não pular o Carnaval, não ser católico, não gostar de futebol, não gostar de samba ou de pagode (ou até mesmo da Xuxa), não me fazia menos brasileiro que ninguém, mas me colocava na posição de pária de uma maneira tão precoce que tive que crescer buscando me identificar com outras culturas, aprender novos idiomas, sonhar com viagens a outros países.

 

Com a intensificação dos processos de globalização do final dos 1990 e início dos anos 2000 essa realidade começou a mudar no Brasil, e o advento da internet para uso pessoal ampliou a possibilidade de acesso a outras culturas e outras possibilidades. Os brasileiros começaram a escutar mais música estrangeira, ver mais filmes de outras nacionalidades e aprender mais idiomas (ainda que por necessidade). Surgiram os indies, os emos, os hipsters. A minha realidade de repente mudou, e eu descobri que se na década de 1990 eu era um alien no Brasil, nos anos 2000 eu era só mais um na multidão.

 

Semeando estereótipos

 

Anos mais tarde ocorreu algo que eu jamais poderia imaginar, o fato de morar em outro país me colocaria mais uma vez em conflito com uma suposta “identidade brasileira”, construída, desta vez, pelo olhar do estrangeiro. Já adulto, morando fora e trabalhando como professor de português para estrangeiros, presenciei diversas vezes a decepção na cara dos alunos ao descobrirem que seu novo professor de português não é uma linda mulata globeleza, cuja única função na vida é sambar, sorrir e ser simpática; e sim um rapaz branquelo, de olhos claros, que não sabe dançar e que, apesar ter muita paciência, também pode ter seus dias de mau humor.

 

Não me entenda mal, os estrangeiros não têm muita culpa de seu olhar estereotipado sobre o Brasil. Talvez essa construção seja consequência da nossa necessidade como nação de buscar um elo, um ponto de encontro, numa sociedade tão diversificada e plural como é a sociedade brasileira. Para atrair os olhos dos estrangeiros impomos ao mundo esse elo imaginado, seja na forma do futebol, da religiosidade, da dança ou da alegria do Carnaval. Exportamos essa imagem para o mundo, porém ignoramos que os estereótipos, uma vez semeados, formam raízes muito profundas.

 

Desconstruindo estereótipos

 

Como resultado, vinte anos depois das perguntas daquela minha professora eu me deparo com a perguntinha dos meus alunos estrangeiros, em tom de brincadeira: ”Que tipo de brasileiro é você, que não pula o Carnaval e não sabe sambar?”

 

E o que é que eu posso responder?

 

  1.  Que o Carnaval não é uma invenção do Brasil, mas de Roma. Os romanos comemoravam o final do ano em fevereiro e o início do ano em março, como geralmente ocorre com os calendários agrícolas daquela região, e faziam a festa em honra ao deus Saturno. Além disso, apesar de o Carnaval do Brasil ser o maior de todos, há outros carnavais no mundo inteiro, como o “Mardi Gras” de Louisiana (Estados Unidos) e o de Gualeguaychú (Argentina), com diferentes influências culturais. Até mesmo a Alemanha tem o seu próprio Carnaval, na cidade de Colonia, que é a prova de que a alegria também não é exclusividade do Carnaval brasileiro. Ser identificado como brasileiro por saber sambar e pular o carnaval seria como deixar-se levar pela tirania de uma ideia de cultura que não reflete a realidade e que não leva em consideração um mundo de intercâmbios constantes entre várias pessoas e culturas muito diferentes.

(Foto: Carnaval de Gualeguaychú, Argentina)

 

(Foto: Mardi Gras - Carnaval de Louisiana, EUA)

 

2.  Que dentro do próprio Brasil existem vários Brasis e vários carnavais bem diferentes entre si. O Carnaval do Rio, o de Olinda com o “Frevo”, o de Salvador, o de São Paulo. No sambódromo ou na rua, com mais ou menos dias de festa, as opções são várias e cada uma tem seu encanto.

 

(Foto: Frevo - Carnaval de Olinda, Pernambuco)

 

3.  Que o Carnaval do Brasil é um evento cheio de alegria e beleza, sim, graças às cores, à criatividade das escolas de samba e à influência da cultura africana. Homens se vestem de mulher e as pessoas se beijam como nunca, mas também tem violência gerada pelo álcool, pelo machismo e até pelo racismo. Essas contradições são antigas e significam que esse evento implica muito mais que a identidade de uma nação. As Marchinhas, por exemplo, um gênero musical carnavalesco do Brasil que teve seu auge nos anos 30 e 40, imortalizou a essência de uma época maravilhosa da cultura brasileira, mas também ratificou o racismo, como é o caso de algumas letras de Lamartine Babo, como “O teu cabelo não nega, mulata”.

 

O Carnaval realmente define o Brasil?

 

 

Em minha época de faculdade como estudante de letras aprendi o termo “cosmopolitismo”, que é um pensamento filosófico que despreza a visão dos limites geográficos e das nações, tendo como objetivo encontrar o universal através das diferenças. Eu gosto dessa ideia, de ser cidadão do mundo incorporando tudo aonde quer que eu vá.

 

Talvez o Carnaval, em vez de definir a brasilidade, seja uma das manifestações mais autênticas de que somos todos cidadãos do mundo. Sob essa ótica o Carnaval fica ainda mais interessante, no Brasil e no mundo, e até dá para eu me arriscar a ir aos blocos para me divertir e estar com os meus amigos, deixando a dança para quem sabe dançar.

 

 

 

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